Para comer, clique aqui - Corporeidade Digital
Advirto que não quero afirmar tipologias e que o exercício que proponho é baseado em tomar a geração representada pelos adolescentes de hoje como partilhante, num recorte muito específico que engloba aqueles que, dentre eles, têm acesso mínimo à tecnologia/internet: são eles que vivem, de maneira plena, o ethos expressado nas formas acima. Eu que vos escrevo, também vivencio a mesma realidade, mas não com a mesma intensidade, pois minha geração é de certa forma, híbrida, ou seja, nascemos sem todo esse mundo digital, e testemunhamos seu nascimento, nos adaptando a ele com mais ou menos facilidade.
É curioso: quando era criança e sentia fome, eu ia até a cozinha e preparava alguma coisa pra comer, ou pedia para minha mãe fazer isso por mim. Tive contato com roça, com vaca, com terra, com plantar e colher, através do meu avô, que nos levava para capinar e ajudar a cuidar da horta, na chácara. Certa vez, durante essas horas de trabalho, ele me chamou a atenção, bravo, ao me ver escorado na enxada, dizendo que “queria ver a cor do meu suor”. Achei aquilo muito estranho, e respondi, com inocência, que o meu suor tinha a mesma cor do suor dele e que o de todo mundo. Ele ficou muito bravo, lógico, mas tenho certeza que compreendia que eu nunca seria apto para trabalho braçal nenhum, por causa da minha estrutura física magricela. Meus primos riam muito disso.
Estou convencido de que a maioria das crianças que nasceram no contexto ao qual me refiro acima – o de apertar botões mágicos que custam caro – não sabem que o leite vem da vaca. Pelo menos a princípio. Eles parecem agir como se o leite, por exemplo, viesse do supermercado, ou do próprio aparelho que ocupa suas mãos a maioria do tempo. Tudo hoje está a um clique de distância, se podemos pagar, é claro, porque tudo tem um preço, ainda que seja a nossa privacidade. E é uma maravilha!
Ouço muito por aí que esta geração está perdida, que jamais serão felizes e que, por causa desse mergulho na tecnologia, eles não vivenciam coisas como o brincar na rua e outras formas de interação social que nossa geração e as passadas vivenciaram. Muitos dizem, ainda, que esse é o grande motivo de problemas sociais graves como distúrbios mentais e emocionais de todo tipo, e até do crescente aumento das taxas de suicídio. Sinceramente eu não concordo e acho que essa opinião é um tanto simplista. Não era exatamente isso que diziam de nós as gerações que vieram antes da gente? E estamos aí, sobrevivemos e somos o presente, misturados ao presente que são as gerações que vieram e virão depois de nós. Apesar disso, há um fato que não passa despercebido: a galerinha de hoje vive sua corporeidade de maneira bem diferente.
O ser humano é um ser que constrói ferramentas e transforma o mundo a partir do seu uso. Os registros disso remontam à idade da pedra. Já parou pra pensar que uma ferramenta como uma lança, para um caçador daquele tempo, ocupava o mesmo lugar que o nosso celular ocupa nos dias de hoje? As coisas que nós inventamos acabam fazendo parte de nós. E é neste sentido que podemos afirmar que o celular, por exemplo, é como um braço, uma perna, ou qualquer membro nosso, é uma extensão de nosso corpo.
Até aqui, tudo bem. Não é de hoje que vivemos essa realidade de ter algo exterior ao nosso corpo fazendo parte da nossa corporeidade. Inclusive, para a Filosofia Clínica, é esta definição de lugar: o quanto do entorno do partilhante ocupa sua Estrutura de Pensamento, ou a impressão subjetiva que a pessoa tem do seu entorno, do lugar que ela habita. Não esqueçamos que, para cada circunstância, aparecerá um lugar. Mas e quando tudo na vida de um indivíduo é vivenciado através de cliques? E quando o lugar é o mundo digital?
Parece que, aqui, estamos diante de um dilema. Vivenciar a consciência da própria corporeidade, num mundo virtual, com todas as suas regras e padrões, não parece estar sendo tarefa fácil para essa galerinha de hoje. Basta pensar que esse mundo, de maneira até mais forte que o mundo físico, é regido por padrões construídos por uma indústria cultural que reifica (reificar é transformar em coisa), “mesmifica” e anula individualidades, em nome de uma construção da identidade que remonta ao mito de Sísifo! O dilema seria o seguinte: como ter uma vivência da corporeidade pessoal que seja, ao mesmo tempo, plena e atual (entenda-se “atual” levando em consideração o mundo digital)?
Para nós, millennials, não existe dilema. Às vezes nos perdemos, mas sabemos bem que o virtual é extensão do físico e que há limites para uma relação saudável com essas ferramentas, com esse outro mundo, ou com essa outra parte do mundo. Considero mais saudável, inclusive, uma compreensão para além dessa oposição, no caso, pois, a bem da verdade, se um é extensão do outro, não há dualidade. Mas, e para um “Z”, ou um “ALFA”?
Para eles, parece que não é bem assim. A corporeidade da maioria deles parece estar diluída na rede e um grande número deles vive a experiência digital como se fosse a única possível, ou a única necessária. Isso explicaria o fato, por exemplo, de vermos uma menina brigando sério com a outra por causa da “curtida” dada a uma foto do seu namorado! Isso explicaria até algumas mortes, tragédias e suicídios. Isso explica muitas coisas, na verdade, mas está longe de resolver o problema. E, por vezes, nem será um problema – depende da historicidade de cada pessoa e de como a pessoa vivencia a sua “corporeidade digital”: mutilando-se a si mesma, ou vivenciando-a como extensão, como lugar não único, mas como apenas mais um lugar, resguardando espaços para viver outras experiências humanas, também importantes.
Mas não nos enganemos nem nos esqueçamos que, para muitas pessoas, isso é sim um grande problema existencial. Problemas como o vício em curtidas, como a insônia e a dificuldade de apaziguamento da mente, o vício em pornografia, o pensamento frenético, o desgosto causado por uma romantização da vida com base naquilo que os famosos e famosas da internet postam, ou seja, por ver que a minha vida é muito diferente daquele ideal de felicidade, são apenas a ponta de um iceberg que avança em direção ao nosso barquinho que está em alto mar, muitas vezes prestes a se chocar com essa montanha de gelo e afundar.
Para esses e outros problemas, há uma série de coisas que se pode fazer, e tudo dependerá de como você existe no mundo. Eu, por exemplo, sou bem abstrato em algumas coisas, gosto de reflexão e acabo pensando demais... Para mim, viver momentos de reflexão sobre como tenho me comportado na Internet, sobre quais conteúdos tenho consumido, e até alguns dias sem acessar, de vez em quando, numa espécie de detox mental, tem sido essencial para voltar a viver minha corporeidade de maneira saudável, completa. Estou tentando viver minha sensorialidade melhor, pois isso também é importante pra mim: sentir o vento, ver as cores dum pôr do sol, passear com minha amiga canina Padmé, sentir o gosto do alimento que estou consumindo, não olhar de imediato as notificações... isso tudo pode dar resultado, ou pelo menos é um início de caminho, para quem já experimentou o mal estar de se consumir dia e noite numa corporeidade digital tóxica. Somos o que consumimos (... o que comemos, disse Hipócrates) e vivemos num mundo de corporeidade digital. Por que não vivê-la bem?
Boa noite, Weider ! Somos, então, espécimes da mesma espécie. Tive toda essa experiência com o mato. Tomei leite tirado diretamente da fonte. Confesso que me sinto sufocado diante das redes sociais. Nesse presente, precisamos delas para divulgar nosso trabalho. Valorizo a conversa face a face. Vez ou outra, vou pescar e deixo a tecnologia de lado por uma semana . Podemos sim, conviver com esse mundo diversificado e, não menos complicado, mas com a devida moderação. Um grande abraço!
ResponderExcluirÉ como diz o velho (Aristóteles, nosso velho amigo, rsrsrs): a virtude está no meio.
ExcluirO texto me faz pensar sobre os excessos. É preciso buscar limites em tudo em nossa vida.
ResponderExcluir🙏🙏🙏🙏PARABÉNS!!!
ResponderExcluirGracias!
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