A bandana preta

Não sei dizer ao certo onde minha cabeça estava naquele momento. O que sei dizer é que não eram dias fáceis. Eu andava às voltas no meu pensamento, percorrendo caminhos de há quase exatos dez anos atrás. Ah! Eram tantos corredores brancos e frios, tantos olhares sequestradores da minha atenção, sequestrados antes a  duras ameaças de morte que um disparo de palavras como “você tem câncer” representa, quando saídos da boca de um especialista no assunto.

Há poucos dias uma dor na mesma região me havia despertado um ramalhete amargo de fortes sentimentos e memórias. E não foi só na cabeça, não: meu corpo também fez memória de todas as dores, do enjôo após cada sessão de quimioterapia enfrentada, da febre intensa com seus calafrios ininterruptos – nossa, senti um neste exato momento! Acho que meu corpo resolveu se lembrar de tudo isso apenas pra que eu me recordasse de que, atualmente, eu não acredito mais em dicotomias como essa de corpo e mente. Sim, era tudo psicológico, menos a dor na mesma região, que já tem destino certo numa consulta que devo fazer em breve. Digo que foi psicológico porque corri para o termômetro e eu não tinha mais que trinta e seis graus e meio.

Não, não eram dias fáceis, mas eu estava lá, de pé, lutando pra quebrar o ciclo de trocar a noite pelo dia que já durava meses. Com dez minutos de atraso, apesar de morar tão perto da academia, ali chegava eu, no primeiro dia na vida em que usava uma bandana, preta, bem animado, disposto a sentir cada contração muscular proporcionada por cada exercício da minha ficha de musculação. A bandana? - Ah, eu resolvi usar para esconder os cabelos, que como diz a minha irmãzinha, pareciam mais uma juba. Gostei do estilo, acho que me caiu bem. É que eu estou usando o cabelo maior, nestes tempos, e estou curtindo muito, aliás. O problema é que tem dias que, bem, você sabe, todo vaidoso dos cabelos tem uma relação de amor e ódio com sua juba... “vaidade das vaidades”, não me faz mal esta vaidade.

Subindo as escadas, me deixando empolgar pelas batidas do som ambiente e cumprimentando cada um e cada uma por quem eu passava, peguei minha ficha e me dirigia ao aparelho onde se realiza a tal remada baixa, quando, de repente, fui abordado por um dos instrutores da academia.

Veja bem: quero fazer justiça a essa abordagem, que foi das mais gentis que eu já recebi na vida. As coisas teriam sido bem mais fáceis pra mim se o médico que me deu o diagnóstico que mencionei acima tivesse usado de gentileza e cuidado iguais aos que meu instrutor destilava em sua melíflua voz, quando veio me dizer que eu não poderia iniciar os meus exercícios naquele dia, pois estava vestindo uma bermuda jeans, o que não era permitido.

Tentei disfarçar o incômodo que aquela comunicação me causou, mas não consegui enfrentar a sensação térmica dos graus negativos daquela negação justa. Meu mantra desta semana é “deixa arder, deixa doer” justamente pra aprender a não fugir da dor, do incômodo, daquilo que me causa o contrário da afinidade, como a gente geralmente é treinado pra fazer. E tenho que fugir de algumas afinidades também. Acho que me expresso melhor se eu disser que ando praticando a não-reação tanto quanto me é possível, pra ver se a mente para de reagir a qualquer estímulo ou de desejar estímulos cada vez maiores e diferentes para, então, reagir e me sentir vivo. Mas ainda estou bem longe de ficar bom nisso, confesso. Desta forma, ainda argumentei contra, perguntando se aquela norma constava em contrato. Diante da resposta positiva a esta pergunta, não pude fazer outra coisa a não ser retroceder e voltar. Todavia, ocorreu um avanço. Pequeno, mas ocorreu.

Enquanto eu me esforçava para não me deixar levar pela indignação que a situação despertava em mim, e ao mesmo tempo, pasme, vislumbrava a chegada de uma brisa leve de decisão de ser diferente, de agir de outra forma que não a habitual, brisa que vinha junto com aquela carruagem de fogo que costuma transformar a gente num dragão cuspidor de razões e enquadramento de si próprio em justas exceções, que é a raiva; enquanto eu via tudo isso chegar até minha consciência e, talvez pela primeira vez na vida, via essas coisas chegarem justamente porque estava há dias praticando a não-reação em diversas coisinhas do dia a dia, eu percebi que podia transformar aquela numa ocasião de bastante aprendizado. Foi então que decidi fazer uma coisa bem simples: ir em casa, correndo, trocar a bermuda, e voltar, como se nada tivesse acontecido.

Só que não dá pra agir como se nada estivesse acontecendo quando você está tentando se esquivar dos olhares curiosos de todos os presentes na academia, aqueles mesmos que você acabou de cumprimentar e que certamente se perguntavam o por quê de eu estar indo embora tão abruptamente; não dá pra agir como se nada estivesse acontecendo quando você já chegou atrasado para a sua atividade física, depois de uma luta hercúlea para ser disciplinado e ir, quando na verdade você só queria ficar em casa, na cama, acabrunhado que está pelo medo e pela incerteza do que será dito na próxima consulta médica.

 E o fogo da raiva ardia, ali, em cada passo. Mas um fogo maior ainda ardia junto, abrasado finalmente por aquela suave brisa da decisão de agir diferente. O dragão no qual eu teria me transformado em situações como aquela cuspiria frases inflamadas como “você queria aparecer, somente isso!”, já que formava parte da circunstância a presença dos donos ou gerentes da academia, no momento em que o instrutor me fazia aquela justa correção. E a razão da minha indignação era justamente esta: o mesmo instrutor já havia me visto praticar com aquela bermuda tantas outras vezes! Por que só agora, na presença dos patrões, era necessária esta correção?  

Quando virava as chaves do portão e da porta da minha casa, entrando em meu quarto pra trocar de roupa, eu tremia um pouco. Mas não era só de raiva, não. Nem era só porque a corrida me havia acelerado o coração. Era porque tudo aqui dentro se parecia com um campo de guerra em pleno fogo cruzado, daqueles que a gente só vê nos filmes, onde cada pequena decisão realmente importa, onde adiantar ou atrasar o tempo de puxar um gatilho significa sobreviver ou morrer.

Na verdade, eu estava mesmo numa situação de vida ou morte: eu precisava optar pela atitude que mais me asseguraria um estado mental positivo, ou aquilo tomaria conta de mim e faria do meu dia um amontoado de frustrações. Não aquilo, exatamente, mas os atos que eu teria, sendo motivado pelo meu ego ferido naquele acontecimento, que poderiam ser desde o embotamento no meu quarto durante horas, até perceber, como sempre acontece, que aquilo era uma infantilidade sem medidas, até as palavras que eu diria ao instrutor quando eu finalmente subisse as escadas da academia, não mais embalado pelas batidas da música ambiente, como há minutos atrás, mas pelas palavras polidas e flamejantes que eu poderia disparar  contra ele, queimando a minha paz.

Não tive bom êxito em fazer tudo o que sabia que era o melhor a ser feito. Em momentos assim eu me habituei a deixar a poeira baixar e a conversar só depois, porque raiva dá e passa e o que importa é o que a gente faz com ela, motivado por ela. Ela é mesmo uma motivação bem potente.

Minha intenção era a de não cruzar meu olhar com o daquele instrutor, pelo menos nos primeiros momentos, pra não deixar escapar a frase que eu havia pensado, palavra por palavra, que tinha o objetivo único de fazê-lo enxergar que, do meu ponto de vista, ele apenas havia se valido de uma oportunidade pra se auto-promover, e eu não gosto nada desse tipo de atitude. Quem é que gosta? Mas não teve como. Ele veio até mim para pedir que eu não ficasse chateado, dizer que se viu obrigado a ter aquela atitude por causa da presença dos patrões e coisas mais desse tipo. Consegui dizer a ele, educadamente e sem ressentimentos, que me desse um tempo pra deixar a raiva passar, explicando que se a conversa ocorresse naquele momento eu certamente o iria ofender. Só que isso foi depois que a frase escapou, infelizmente. Eu não deveria tê-la falado e me censuro por esta falha. Minha felicidade seria bem mais completa do que a que experimento agora!

Sim, experimento felicidade agora porque, por primeira vez, eu consegui ver o processo como um todo: vi os sentimentos chegarem, vi os efeitos que eles provocaram. Vi cada pensamento, cada produto da minha imaginação inflamada pelo meu ego. Vi, também, as possibilidades que a imaginação criava quando eu pensava em termos como renúncia, compaixão, paciência.  Vi tudo isso e não reagi, como de costume. Antes, decidi curtir a brisa refrescante de uma ação diferente, aquela que chegou junto da carruagem desgovernada, na qual escolhi não entrar, pois já sei aonde ela pode levar, e sei que o destino de suas rodas é sempre o mesmo: o arrependimento, no final das contas. Já f\ um bom tempo que decidi com firmeza não me arrepender de palavra, nem de ato algum, e hoje vi que é muito possível. E vi tudo aquilo passar, abri mão e deixei tudo aquilo passar. Ficou o aprendizado. 

Será que foi a bandana preta?

Comentários

  1. Muito bom! Não sei se tem a ver mas me remeteu a esse trecho:
    Três salas, ó cansado peregrino, conduzem ao fim das labutas. Três salas, ó vencedor de Mâra,1 te levarão através de três estados2 até ao quarto3, e daí até aos sete mundos4, os mundos do Eterno Repouso. (Versículo 22).
    O nome da Primeira Sala é Ignorância - Avidya. (Versículo 24).
    É a Sala em que viste a Luz, em que vives e hás de morrer.5 (Versículo 25).
    O nome da Segunda Sala é a Sala de Instrução.6 Nela, tua Alma encontrará as flores da vida, mas debaixo de cada flor há uma serpente enrolada.7 (Versículo 26).
    O nome da Terceira Sala é Sala da Sabedoria, além da qual se estendem as águas sem praias de Akshara, a Fonte indestrutível da onisciência.8 (Versículo 27).

    A Voz do Silêncio.
    Helena Petrovna Blavatsky (1831 - 1891

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    1. Obrigado por seu comentário. Ainda não conheço essa obra à qual você se refere. Pode me mandar um link para acesso a ela?

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  2. Olá. Weider! Seu texto nos arremete a uma rica reflexão. Vencer as lutas sem reclamar delas é uma grande virtude. Nosso vida é repleta de eventos amargos ou doces. O que difere, é como cada um lida com esses sabores ou dissabores. Gostei imenso da sua narrativa de uma fase conturbada. Aqui podemos ver o homem sensato , sem tempo para lamúrias, importando seguir em frente em sua jornada, não importando "as pedras pelo caminho." A bandana lhe cai muito bem! Bom dia! Grande abraço!

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    1. Ah, caríssimo! Obrigado por seu comentário: uma dose de alegria e de certeza de boas decisões. Gratidão e reverência!

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  3. Adorei Weider ! Muitas pessoas vivem processos sem saber os assuntos, as circunstâncias, o tempo, o ambiente e as relações envolvidos. Neste texto, você conseguiu expressar o seu mundo e foi além: escreveu e compartilhou com todos nós! Ah, sobre a bandana preta... não foi ela exatamente. Mas também não vamos descartar. Há uma interseção positiva com esse objeto, e isso conta!

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